terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

NÚNCIO NA UCRÂNIA FALA SOBRE A SITUAÇÃO NO PAÍS E PEDE ORAÇÃO PARA QUE SE TENHA A CORAGEM DE ESCOLHER A PAZ

 

No dia seguinte à oração do Papa Francisco no Angelus para que se faça “todo esforço pela paz” na Ucrânia, onde os ventos da guerra sopram, o núncio apostólico, dom Visvaldas Kulbokas, relançou o apelo do Pontífice e exortou a não frear o diálogo entre as partes.

Há três semanas fizemos uma entrevista com o senhor, o que mudou desde então, qual é a situação na Ucrânia?

É claro que a situação já estava tensa há três semanas, mas tornou-se ainda mais tensa. O que estou percebendo é que há um nível muito alto de preocupação entre as pessoas, há também o medo. Entretanto, devo dizer que, em geral, os ucranianos também estão mostrando grande resiliência. Isto porque o conflito nos territórios orientais já vem ocorrendo há quase oito anos, de modo que existe também uma certa capacidade humana para lidar com situações de emergência. O medo é grande, a tensão é alta, mas mesmo assim as pessoas estão resistindo bastante bem.

Não sei se o senhor notou que na mídia ocidental se fala da grande tensão na Ucrânia. O senhor acha que isso realmente reflete o clima em que as pessoas vivem?

Claro que se pode dizer que há muita atenção porque é como se se pudesse sentir o cheiro da guerra, o que preocupa a todos. Isso preocupa aqueles que têm filhos, aqueles que vivem com idosos, mulheres grávidas, mas aqui o governo está tentando acalmar a população. E, na minha opinião, isto também faz parte da missão da Igreja Católica e, em geral, das igrejas e comunidades religiosas, de incutir pelo menos uma calma relativa mesmo em situações de emergência.

Como a Igreja Católica na Ucrânia interpreta a situação atual?

Fiquei muito contente de ouvir tantas homilias encorajadoras. O que se tem notado é que a oração pela paz tem sido cheia de fervor nestes dias. Você pode sentir a preocupação dos fiéis que vêm às paróquias, mas também se pode sentir uma oração profunda porque sabemos muito bem que a oração não é uma coisa qualquer, a oração tem um enorme poder de mudar os corações, de mudar o curso da história.

A impressão é que o diálogo neste momento está parado e que as partes não estão se ouvindo… O diálogo está encontrando obstáculos agora. O que ocorre é o que acontece nas famílias quando surge um conflito, que não surge naquele momento, mas existem causas anteriores que deram origem a esses mal-entendidos. Este é um aspecto… Quando o diálogo se rompe, a culpa é de muitos, em minha opinião, e não apenas de alguns diretamente envolvidos. O segundo aspecto, que é muito positivo, é que a Igreja redescobre a beleza de sua própria vocação porque, no diálogo político, escolher o caminho da paz significa ter muita coragem. Assim, quando rezamos pela paz, rezamos também pela coragem dos políticos.

A missão da Igreja é olhar para todos como irmãos, portanto, quando falamos de diálogo e quando rezamos pelo diálogo, como Igreja sabemos que temos a missão de iluminar o diálogo. Quando rezo pessoalmente pela paz, sei muito bem que a qualquer momento Nosso Senhor Jesus é capaz de iluminar um ou outro político, um ou outro soldado, e mudar diametralmente as decisões. É preciso muito pouco, apenas uma mudança de perspectiva de um lado para o outro, como um irmão, e as decisões mudam. Portanto, mesmo que a situação seja muito tensa, muito difícil, humanamente falando, é uma maneira de a Igreja redescobrir sua missão. Também podemos acrescentar que, como comunidade de crentes, somos convidados a contribuir para a construção da sociedade, das nações, dos países, mas esta construção nunca significa ir contra alguém, significa acima de tudo construir nós mesmos, a unidade, a compreensão. Também significa construir um maior entendimento entre as igrejas, porque quanto mais unidos estivermos, mais fortes estaremos dentro e mais capazes de dar um testemunho do Evangelho aos outros.

Com informações do VaticanNews e CNBB


sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

COLETA DA SOLIDARIEDADE, DA CF 2022, CONTRIBUI PARA A PROMOÇÃO DA DIGNIDADE HUMANA, O COMPROMISSO COM OS POBRES E A VIDA PLENA

 


Neste ano, a Campanha da Fraternidade tem como tema “Fraternidade e Educação” e o lema “Fala com sabedoria, ensina com amor”  (Pr 31,26). Seu início se dará na abertura da Quaresma, dia 2 de março, na Quarta-Feira de Cinzas.

A presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) destaca que “a Quaresma é um tempo favorável para a conversão do coração ” e que a a CF, realizada pela Igreja no Brasil desde 1964, tem como propósito ser um caminho para que os cristãos vivam a espiritualidade quaresmal com o sentido de mudança e transformação pessoal rumo à solidariedade a um problema concreto da sociedade brasileira.

Em 2022 será a terceira vez que a Igreja no Brasil vai aprofundar o tema da educação em uma Campanha da Fraternidade. Desta vez, a reflexão será impulsionada pelo Pacto Educativo Global, convocado pelo Papa Francisco.

“Ao longo da  caminhada quaresmal, em que a conversão se faz meta primeira, recebemos o convite para busca os motivos de nossas escolhas em todas as ações e, por certo, naquelas que dizem respeito mais diretamente ao mundo da educação”, convida a presidência da CNBB.

Deste modo, a Campanha da Fraternidade de 2022 convida a todos a promover diálogos a partir da realidade educativa do Brasil, à luz da fé cristã, propondo caminhos em favor do humanismo integral e solidário.

Participe da Coleta da Solidariedade

Do total arrecadado na Coleta para a Solidariedade, 60% fica na própria diocese e é gerido pelo Fundo Diocesano de Solidariedade (FDS) com o objetivo de apoiar iniciativas e projetos locais. Os outros 40% compõem o Fundo Nacional de Solidariedade (FNS), que é administrado pelo Departamento Social da CNBB, sob a orientação do Conselho Gestor da CNBB.

Bispo, padres, religiosos(as), lideranças leigas, agentes de pastoral, colégios católicos e movimentos eclesiais são os principais motivadores e animadores da Campanha da Fraternidade em suas comunidades, paróquias e dioceses.

A Igreja espera que todos participem oferecendo sua solidariedade em favor das pessoas, grupos e comunidades, pois “ao longo de uma história de solidariedade e compromisso com as incontáveis vítimas das inúmeras formas de destruição da vida, a Igreja se reconhece servidora do Deus da vida”.

O Dia Nacional da Coleta será no próximo 10 de abril, Domingo de Ramos. Os fieis poderão realizar suas doações, para aplicação em projetos sociais, na conta indicada abaixo, ao longo de todo o ano. O comprovante do depósito precisa ser enviado por e-mail para financeiro@cnbb.org.br

Banco Bradesco
Agência: 0484-7
Conta corrente: 4188-2 (CNBB)
CNPJ: 33.685.686/0001-50

Outras informações sobre a Campanha podem ser consultadas em: https://campanhas.cnbb.org.br/

Subsídios

A cada ano, o Setor de Campanhas da Conferência Nacional dos Bispos dos Brasil (CNBB) com a Edições CNBB produzem e preparam uma série de subsídios para diferentes públicos com o objetivo de promover, a partir de diferentes realidades, a reflexão e a ações propostas em torno da Campanha da Fraternidade. Estes subsídios estão agrupados no Manual da CF 2022.

 

FONTE: https://www.cnbb.org.br/

sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

A Igreja no pós pandemia: desafios pastorais

 



Por Maria Cecilia Domezi*

 Introdução

No dia 27 de março de 2020, foi um sinal dos tempos o vazio plenificado de sentido humano envolto pelo mistério divino na imensa praça de São Pedro. Francisco, bispo de Roma, ali caminhou sozinho, carregando no coração a dor da humanidade e do mundo. Mostrou que a cruz vence o absurdo, liberta-nos do medo e nos dá esperança. Conclamou todos a possibilitar “novas formas de hospitalidade, de fraternidade e de solidariedade”. E fez esta oração:

Na nossa avidez de lucro, deixamo-nos absorver pelas coisas e transtornar pela pressa. Não nos detivemos perante os teus apelos, não despertamos face a guerras e injustiças planetárias, não ouvimos o grito dos pobres e do nosso planeta gravemente enfermo. Avançamos, destemidos, pensando que continuaríamos sempre saudáveis num mundo doente. Agora, sentindo-nos em mar agitado, imploramos-te: “Acorda, Senhor!” (VATICAN NEWS, 27 mar. 2020).

Neste mundo enfermo, são muitos e urgentes os desafios pastorais para a Igreja, que, como insiste o mesmo papa Francisco, é chamada a ser Igreja em saída.

 

1. Sair do centralismo clerical e do culto sem vida

É teologia fontal da Igreja cristã que o batismo estabelece entre seus membros uma igualdade fundamental. De fato, o apóstolo Paulo escreveu: “Não há mais diferença entre judeu e grego, entre escravo e homem livre, entre homem e mulher, pois todos vocês são um só em Jesus Cristo” (Gl 3,28).

Com o tempo, porém, as relações fraternas e igualitárias entre os membros da Igreja foram contaminadas por desigualdades e discriminações. As mulheres, submetidas desde muito cedo ao crivo do patriarcalismo, têm sido as mais prejudicadas. Os ministérios foram clericalizados e hierarquizados, com nuances estranhas à mensagem e à prática de Jesus. Isso resultou numa institucionalização empobrecida e fechada no mundo clerical masculino, em detrimento do carisma (SOBERAL, 1989, p. 175-177; 290; 331-332).

No Concílio Vaticano II, o aggiornamento da compreensão da Igreja sobre si mesma deu primazia ao povo de Deus em sua totalidade. A partir do concílio e com base na dignidade de todas as pessoas batizadas, a hierarquia e os ministérios específicos são redimensionados. Por isso, o papa Francisco afirma que as funções na Igreja não legitimam a superioridade de uns sobre os outros. Acima do ministério sacerdotal está a dignidade e a santidade acessível a todos e todas (EG 104).

Nos meses atípicos da pandemia, não faltaram testemunhos de atuação de membros da Igreja conscientes dessa doutrina e coerentes com ela. Segmentos do laicato católico, junto com sacerdotes, religiosas e religiosos, prepararam e conduziram, na internet, importantes seminários, ciclos de formação, momentos de espiritualidade e de liturgia que celebra a vida e a luta. A ação pastoral caminhou, com seus serviços específicos, na comunhão das Igrejas locais e da Igreja universal. E o exercício consciente da “cidadania batismal” se fez sentir, na corresponsabilidade de todos enquanto participantes do ministério comum de líderes-pastores, sacerdotes e profetas.

No entanto, também apareceram descompassos: o de um laicato reduzido a ajudante do padre e quase somente ao redor do altar do culto, e o de padres restritos ao altar, que enviaram aos fiéis mensagens quase sempre de mão única, sem espaço aberto para o diálogo. Está certo que muitos sacerdotes saíram pelas ruas a pé, em cima de caminhonetes e até sobrevoando de helicóptero para dar a bênção do Santíssimo Sacramento. Famílias esperaram durante horas, reunidas em oração. Transformaram em capelas suas garagens, varandas, janelas, com toalhas estendidas, flores, velas e imagens de santos de devoção. Emocionaram-se e se sentiram consoladas. Ali estava o rico potencial do catolicismo popular.

A questão é que a bênção não pode ser só de passada, num vazio de vínculo e de compromisso com as pessoas em suas realidades e situações específicas. Ainda mais porque o pluralismo religioso chama a Igreja a superar aquele modo de cristandade que se impõe como religião de toda a nação. A Igreja em saída empenha-se numa construção como que artesanal da abertura ao outro, criativamente, com o ecumenismo que contribui para a unidade da família humana (EG 244-245). E a dádiva da bênção divina virá pela consciência de que a imagem de Deus está gravada na pessoa de quem sofre:

São inseparáveis a oração a Deus e a solidariedade com os pobres e os enfermos. Para celebrar um culto agradável ao Senhor, é preciso reconhecer que toda pessoa, mesmo a mais indigente e desprezada, traz gravada em si mesma a imagem de Deus. De tal consciência deriva o dom da bênção divina, atraída pela generosidade praticada para com os pobres. Por isso, o tempo que se deve dedicar à oração não pode tornar-se jamais um álibi para descuidar o próximo em dificuldade. É verdade o contrário: a bênção do Senhor desce sobre nós e a oração alcança o seu objetivo quando são acompanhadas pelo serviço dos pobres (FRANCISCO, 2020a).

Nessa dinâmica que dá vida ao culto, também é preciso repensar a pastoral voltada para as famílias. Estas, tantas vezes destroçadas e cada vez mais marcadas pela pluralidade religiosa, estão longe daquele modelo de moral familiar sob o controle do clero católico para manter a sociedade hegemonicamente católica.

A pastoral familiar precisará de todo o envolvimento e ajuda da comunidade eclesial para que seus animadores e agentes estejam em permanente formação, cultivando a espiritualidade na interação com o engajamento social. Como Jesus ao aproximar-se da viúva que enterrava seu filho único (Lc 7,11-17), da sogra de Pedro enferma (Lc 4,38-40), de Jairo e de sua filha que estava morrendo (Lc 8,40-56), é imprescindível a proximidade com as famílias em sua real condição de vida e, agora, com as marcas dolorosas da pandemia, para ajudá-las a experimentar a misericórdia de Deus (CNBB, 2019, n. 139).

Na realidade brasileira, principalmente nas grandes cidades, as famílias são atingidas por isolamentos permanentes e indeterminação de lugar. Muitas delas tornam-se pequenos aglomerados de indivíduos isolados, sofrendo com a crise econômica e o desemprego, e com uma rotina marcada pelo medo e pelo desamparo. Um culto que se furte a essa realidade e não se paute no direito e na justiça torna-se ofensa a Deus. Na palavra divina “quero a misericórdia e não o sacrifício” (Mt 9,13), está o princípio ético absoluto que inclui  todos e põe a vida antes da norma e do culto (PASSOS, 2020, p. 118-119).

As famílias têm o amor vivido, que é força para toda a Igreja (AL 88). E grupos de famílias podem constituir núcleos comunitários onde a Igreja se reúne para meditar a Palavra, rezar, partilhar a vida e o pão (CNBB, 2019, n. 140).

 

2. Ser Igreja na comunhão de pequenas comunidades

Por um lado, faltam-nos estudos, fundados na objetividade científica, a respeito da vivência dos católicos durante o isolamento social, longe dos padres. Sabemos que é real a crescente secularização, assim como a tendência aos arranjos pessoais de crenças e práticas religiosas em meio à modernidade líquida.

Por outro lado, testemunhos de diversos amigos falam da força do catolicismo popular, no qual se está historicamente habituado a não sentir tanta falta da presença do sacerdote. Podemos lembrar o ciclo da mineração do ouro na história do Brasil. O poder central da colônia proibiu a presença do clero religioso e submetia a rígido controle os padres seculares. Em meio às dores da escravidão, porém, ali nas Minas Gerais, forjou-se um modo de Igreja da base, de face leiga e devota, comunitária, fraterna e até certo ponto subversiva da ordem injusta e cruel que se impunha. Junto com alguns freis e padres místicos e andarilhos, os ministérios eram exercidos por capelães de beira de estrada, beatos, festeiros, fundadores de santuários, membros e dirigentes de irmandades devotas dos santos.

Essa trilha histórica do catolicismo popular, com seu sulco profundo, preservou-se apesar do empenho romanizador da hierarquia da cristandade. Seu referencial foi importante para a irrupção insuspeitada das comunidades eclesiais de base, no pentecostes do Concílio Vaticano II, que a Igreja da América Latina abraçou de modo original desde a Conferência de Medellín. Como afirma o Documento de Aparecida, elas “demonstram seu compromisso evangelizador e missionário entre os mais simples e afastados e são expressão visível da opção preferencial pelos pobres”. A serviço da vida na sociedade e na Igreja, são fonte e semente da multiplicidade dos ministérios eclesiais (DAp 179).

Será imprescindível a atuação de muitas pequenas comunidades eclesiais missionárias nas ruas, condomínios, aglomerados, edifícios, unidades habitacionais, bairros populares, povoados, aldeias e grupos de afinidade. No encontro de comunidades que celebram a Eucaristia, sacramenta-se a privilegiada comunhão com a Igreja local, os vínculos fraternos se fortalecem, partilha-se a vida, há compromisso em projetos comuns e impulsiona-se a missão em meio à sociedade (CNBB, 2019, n. 85).

No mundo pós-pandemia, o centralismo na matriz paroquial não será oportuno, tampouco a concentração de massas de católicos em grandes templos. Quando forem possíveis, o encontro e o culto em catedrais, templos grandes, estádios serão de comunidades vivas em comunhão e participação. Na Eucaristia, sacramento da unidade de toda a Igreja, estará a vivência eucarística de todos os membros em seu cotidiano.

As mulheres, especialmente, têm dado testemunho dessa dimensão eucarística no cotidiano das casas. Como observa a teóloga inglesa Tina Beattie (2020), surgiu uma Igreja doméstica que dissolveu fronteiras entre a liturgia formal, mediada por um sacerdócio exclusivamente masculino, e um mundo doméstico mais informal, de liturgias caseiras e rituais improvisados, muitas vezes presididos por mulheres. Elas assumiram o sacerdócio da casa e da criação, e tornaram eucarísticas as refeições.

 

3. Ser Igreja em defesa da vida, sobretudo da dos mais pobres e vulneráveis

A Igreja em saída é decididamente missionária. Deixa de ser autorreferencial e preocupada em ser o centro, presa num emaranhado de obsessões e procedimentos. Sai em direção aos outros e chega às periferias humanas. É a casa do Pai aberta a todos e é mãe de coração aberto. É preferível que esteja “acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas” a enferma pelo próprio fechamento em si (EG 46-49).

É claro que os recursos econômicos são necessários, como também as estruturas eclesiásticas societárias e jurídicas. Será preciso, porém, vencer a tentação de persistir na manutenção da falsa segurança na grandeza e no poder. E, no âmbito da sociedade, profeticamente dizer não à economia de exclusão. “Esta economia mata!” Ninguém é descartável (EG 53-56). Nessa perspectiva, são antievangélicas as barganhas com governantes opressores (CNBB, 2020a). Como disse o papa Francisco no final do Regina Coeli, em 31 de maio de 2020, “nós, pessoas, somos templos do Espírito Santo; a economia não”.

Que não se cobre dos paroquianos, já tão angustiados pela crise econômica e pelo desemprego, uma sobrecarga de obrigações com quermesses, festas e campanhas de arrecadação de dinheiro. A exemplo das primeiras comunidades cristãs (At 2,42-47 e 4,32-37), é hora de encorajar-se uns aos outros para a mútua ajuda, leigos e sacerdotes, compartilhando a própria pobreza, as dádivas da criação, o tempo a dedicar ao próximo, os dons de cada um. Na Igreja local correspondente à diocese, uma caixa comum será oportuna para diminuir a desigualdade econômica entre os membros do clero e socorrer os que estejam em necessidade.

Desse modo, a Igreja testemunhará ao mundo que a vida tem de estar em primeiro lugar. O Concílio Vaticano II afirma que o desenvolvimento econômico deve permanecer sob a direção do ser humano, mas não deve ser deixado só a cargo de uns poucos indivíduos ou grupos economicamente mais fortes, nem exclusivamente da comunidade política, nem de algumas nações mais poderosas (GS 65).

Em 24 de abril de 2020, numa nota reiterativa do Pacto pela Vida e pelo Brasil, de diversas organizações voltadas para o bem comum, a CNBB afirmou que a economia deve estar a serviço da vida, na perspectiva da Doutrina Social da Igreja. Além disso, conclamou toda a sociedade brasileira e os responsáveis pelos poderes públicos “a se libertarem dos vírus mortais da discórdia, da violência, do ódio”, unindo-se na defesa da vida, especialmente a dos mais pobres e vulneráveis.

Como Igreja em saída, temos de nos lançar nos serviços de cura da humanidade e do mundo. É bem oportuna a metáfora do papa Francisco da Igreja como um hospital de campanha:

Aquilo de que a Igreja mais precisa hoje é a capacidade de curar as feridas e de aquecer o coração dos fiéis, a proximidade. Vejo a Igreja como um hospital de campanha depois de uma batalha. É inútil perguntar a um ferido grave se tem o colesterol ou o açúcar altos. Devem curar-se as suas feridas. Depois podemos falar de todo o resto. Curar as feridas, curar as feridas… E é necessário começar de baixo (FRANCISCO, 2013b).

A Igreja como hospital de campanha é a que faz diagnósticos, identificando os sinais dos tempos; faz prevenção, criando um sistema imunológico ao vírus do medo, do ódio, do populismo e do neocolonialismo; e faz convalescência, com o perdão que ultrapassa os traumas (HALÍK, 2020).

Nesse modo de atuar na sociedade, como membros da comunidade eclesial, ajudaremos as pessoas a se libertarem da indiferença consumista, a cultivar uma identidade comum e uma história a ser transmitida para as novas gerações, a recuperar e desenvolver os vínculos que fazem surgir novo tecido social. Cuidaremos do mundo e da qualidade de vida dos mais pobres, na consciência solidária de habitarmos numa casa comum que Deus nos confiou (LS 178).

 

Referências bibliográficas

BEATTIE, Tina. As mulheres e a Igreja pós-pandemia. Revista IHU On-Line, São Leopoldo, 5 jun. 2020. Disponível em: <http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/599690-as-mulheres-e-a-igreja-pos-pandemia-artigo-de-tina-beattie>. Acesso em: 20 jun. 2020.

CELAM. Documento de Aparecida: texto conclusivo da V Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e do Caribe (DAp). Brasília, DF: CNBB; São Paulo: Paulus/ Paulinas, 2007.

CNBB. Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil: 2019-2023. Brasília, DF: CNBB, 2019. (Documentos da CNBB, n. 109).

______. Nota de esclarecimento, 6 jun. 2020a. Disponível em: <https://www.cnbb.org.br/a-igreja-catolica-nao-faz-barganhas-afirma-nota-de-esclarecimento/>. Acesso em: 20 jun. 2020.

______. Nota oficial da presidência, 29 abr. 2020b. Disponível em:  <https://franciscanos.org.br/noticias/posicionamento-da-cnbb-em-defesa-da-democracia-pela-justica-e-pela-paz.html>. Acesso em: 20 jun. 2020.

CONCÍLIO VATICANO II. Constituição Pastoral Gaudium et Spes: sobre a Igreja no Mundo Atual (GS). In: ______. Compêndio do Vaticano II: constituições, decretos, declarações. 20. ed. Petrópolis: Vozes, 1989.

FRANCISCO, papa. Exortação Apostólica Evangelii Gaudium: sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual (EG). São Paulo: Paulus/Loyola, 2013a.

______. Exortação Apostólica Pós-sinodal Amoris Laetitia: sobre o amor na família (AL). São Paulo: Paulinas, 2016.

______. Carta Encíclica Laudato Si’: sobre o cuidado da casa comum (LS). São Paulo: Paulus/Loyola, 2015.

______. Entrevista a Antonio Spadaro. Revista IHU On-Line, São Leopoldo, 19 out. 2013b. Disponível em: <http://www.ihu.unisinos.br/noticias/523920-procuremos-ser-uma-igreja-que-encontra-caminhos-novos-entrevista-com-o-papa-francisco>. Acesso em: 20 jun. 2020.

______. Mensagem do Santo Padre Francisco para o IV Dia Mundial dos Pobres, 13 jun. 2020a. Disponível em: <http://www.vatican.va/content/francesco/pt/messages/poveri/documents/papa-francesco_20200613_messaggio-iv-giornatamondiale-poveri-2020.html>. Acesso em: 20 jun. 2020.

______. Carta ao presidente da Colômbia, Iván Duque Márquez, por ocasião do Dia Mundial do Meio Ambiente. Vatican News, 5 jun. 2020b. Disponível em: <https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2020-06/papa-carta-presidente-colombia-dia-mundial-meio-ambiente.html>. Acesso em: 20 jun. 2020.

HALÍK, Tomás. Igrejas fechadas: um sinal de Deus? Revista IHU On-Line, São Leopoldo, 3 maio 2020. Disponível em: <http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/598553-igrejas-fechadas-um-sinal-de-deus-artigo-de-tomas-halik>. Acesso em: 20 jun. 2020.

MAYER, Tânia da Silva. Igrejas domésticas em tempos de pandemia. Dom Total, 7 abr. 2020. Disponível em: <https://domtotal.com/noticia/1435277/2020/04/igrejas-domesticas-em-tempos-de-pandemia/>. Acesso em: 20 jun. 2020.

PASSOS, João Décio. O vírus vira mundo: em pequenas janelas da quarentena. São Paulo: Paulinas, 2020.

SOBERAL, José Dimas. O ministério ordenado da mulher. São Paulo: Paulinas, 1989.

VATICAN NEWS. Papa Francisco: abraçar o Senhor para abraçar a esperança, 27 mar. 2020. Disponível em: <https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2020-03/papa-francisco-coronavirus-bencao-urbi-et-orbi.html>. Acesso em: 20 jun. 2020.

 

* Maria Cecilia Domezi

doutora em Ciência das Religiões e mestre em Teologia e em História Social, leciona História da Igreja no Instituto Teológico São Paulo (Itesp). Entre seus livros está Mulheres do Concílio Vaticano II, publicado pela Paulus. Tem experiência de trabalho pastoral e assessoria às CEBs.

 

segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

XXII Assembleia Paroquial de Pastoral - 2021

 

Neste último domingo (19) de Dezembro, realizamos em nossa Paróquia a XXII Assembleia Paroquial de Pastoral, norteada pelo tema: IGREJA SINODAL: COMUNHÃO, PARTICIPAÇÃO E MISSÃO NAS COMUNIDADES ECLESIAIS MISSIONÁRIAS, e motivados pelo Lema: " Para que todos sejam um" (Jo 17, 24)

Com a presença das forças vidas da Igreja: comunidades e pastorais, o dia foi repleto de reflexão, planejamento e alegria.

confira as fotos.
















































sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

"Apparecida" vista pelos visitantes


 

Em 1910, Dom Joaquim Antônio de Almeida, primeiro Bispo do Piauí(1906 – 1911), perlustrou o Baixo-Gurgueia em visita pastoral, acompanhado de sua comitiva. Depois de desobrigar a vetusta vila de Jerumenha, parte para Aparecida, hoje Bertolínia, em lombo de animais, acompanhado do coronel Bertolino Rocha Filho, então deputado estadual, e do padre Moysés Pereira dos Santos, vigário local e futuro genro deste. Saíram na manhã de 30 de agosto e chegaram à pequena vila d’Aparecida às 18h do dia 1º de setembro, de onde mais logo iria o Bispo para Uruçuí.

Tanto em Jerumenha quanto em Aparecida foi o coronel Bertolino Filho anfitrião da comitiva. Embora bem recebidos os visitantes pela minúscula população local, a localização da vila causou-lhes profunda impressão. O cronista da viagem assim registrou na imprensa local:

“Aparecida é um lugar sem vida e sem representação. O seu movimento principal é no tempo da festa, em agosto, ou quando há ato religioso, sofrendo muito o povo que se reúne no estio pela falta d’água, pois a pequena Vila está situada distante, quase uma légua, do riacho ‘Esfolado’” (O Apóstolo, n.º 179, de 20.11.1910).

Em 1915, outro visitante ilustre, o escritor e engenheiro agrônomo Francisco de Assis Iglésias, natural de São Paulo passou por Aparecida em demanda da Fazenda Grande, no Gurgueia, onde ia implantar projeto agropecuário, por ordem do governo. Chegou à vila às 11h do dia 28 de julho. Assim anotou em seu livro Caatingas e chapadões:

“Aparecida causou-me profunda desolação. Não sei por que existe este povoado, e se ele desaparecesse seria um grande bem. Não consegui ver a razão econômica desta cidade. Tive a impressão de que estava em franca decadência. Encontrei o Triatoma megista em grande quantidade. A população tem um aspecto doentio; atualmente não há papudos. Informaram-me que há pouco morreu uma velha papuda. Dizem as pessoas com quem tenho falado que os chupões atacam as galinhas no choco, de tal maneira, que estas morrem exauridas, sem um pingo de sangue. O Triatoma é conhecido aqui pelo nome de bicho-de-parede” (Iglésias, Francisco de Assis. Caatingas e chapadões. 3.ª Ed. Teresina: APL, 2015).

Em 1917, Iglésias visitou novamente a vila d’Aparecida visando alcançar o mesmo destino, não tendo mudado de opinião. Novamente anotou:

“À hora regimental, ganhamos novamente a estrada. À medida que nos íamos aproximando da Aparecida, onde devíamos pernoitar, a paisagem tomava aspectos desagradáveis: a topografia não podia ser mais tétrica; à direita levantam-se aleijões de arenito corroídos pelas constantes erosões; tal cenário deu-me momento de mal-estar, de angústia, que me roubou até o meu costumeiro otimismo e amor à natureza. Livrai! Que lugar horrível!

‘À tarde, ao lusco-fusco, chegamos a Aparecida, triste cidade, nossa conhecida de 1915. Amavelmente recebido pelas pessoas da cidade, fui hospedar-me na casa do agente telegráfico, casa de alvenaria e coberta de telhas. Após o jantar, como me sentisse fatigado, pedi licença aos meus hospedeiros e estirei-me na rede, não sem verificar primeiro se estava a salvo dos perigosos e nojentos ‘chupanças’ transmissores da Moléstia de Chagas”(op. cit., p. 273).

Portanto, a vila d’Aparecida, emancipada em 1890, não causava boa impressão aos visitantes em seus primeiros trinta anos de vida política. É que estes não viam razão econômica de sua existência, vez que não se situava à margem de nenhum curso d’água. O Esfolado ficava à distância de uma légua, de forma que a população dependia de poços cacimbões para beber e dar água aos animais. As demais vilas do Piauí estavam às margens de rios ou riachos, daí a estranheza dos visitantes. É sabido que existia um poço cacimbão na praça, defronte ao atual edifício da prefeitura e alguns em casas de famílias. Por esse tempo somente existia o largo da igreja, onde morava um punhado de parentes nossos ajudados por alguns agregados. Era minúscula a vila, pois os principais criadores moravam em suas fazendas, somente vinda à vila nos festejos religiosos ou em alguma reunião para tratar dos negócios públicos.

Porém, é importante ressaltar que a razão de sua fundação foi de ordem religiosa, por conta de uma propalada aparição de Nossa Senhora. Então, começou a romaria de que resultou na povoação, não tendo origem em sede de fazenda como a maioria das outras comunas brasileiras. Primeiro foi construída a capela e em torno desta a povoação. Todavia, diferentemente dos visitantes, nós dali temos boas lembranças do lugar, embora reconheçamos os desacertos de algumas decisões e a lentidão do progresso. Abraço aos conterrâneos, orgulho do passado e esperança no porvir. 

(Diário do Povo, 2.6.2016).

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REGINALDO MIRANDA, autor de diversos livros e artigos, é membro efetivo da Academia Piauiense de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico do Piauí e do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB-PI. Atual presidente da Associação de Advogados Previdenciaristas do Piauí. Contato: reginaldomiranda2005@ig.com.br 


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